Charles Richet
Fundador e Apóstolo da Metapsíquica
Com este trabalho, transcrito de REFORMADOR de agosto de 1954, buscamos
lembrar a passagem do sesquicentenário de nascimento de Charies Richet (1850 -
26 agosto - 2000). Para maiores dados
biobibliográficos, recomendamos a leitura, entre outros, dos artigos estampados
em setembro/1950 e dezembro/1980 no mesmo órgão de imprensa da FEB, além da
crõnica "A passagem de Richet" do Espírito Humberto de Campos em
"Crônicas de Além-Túmuio", pelo médium Francisco Cândido Xavier.
Corria
o ano de 1897, quando Charies Richet, em seu discurso inicial proferido como
presidente da Sociedade de Estudos Psíquicos de Londres, teve ense o de
introduzir, pela primeira vez, o termo Metapsíquica como designação da nova
ciência que, segundo suas próprias palavras, seria um dia considerada a rainha
das ciências".
É difícil, em simples nota, interpretar sua personalidade de sábio em
numerosos ramos do saber humano: médico, filólogo, bacteriólogo, sociólogo,
literato e metafísico, tendo mesmo cogitado, se bem que rapidamente, do campo
da engenharia, quando de seus primeiros ensaios pelo domínio do ar.
Nascido em Paris a 26 de agosto de 1850, seguiu as pegadas de seu pai,
ao tempo cirurgião e professor da Faculdade de Medicina; notou, no entanto, já
no exercício de sua profissão, que sua vocação real era a da investigação. E, como interno dos hospitais, pôde
dedicar-se, durante um ano inteiro, ao estudo do sonambulismo, que foi sua
iniciação no campo da Fisiologia, chegando de tal maneira a destacar-se, que
foi designado, em 1878, com a idade de 28 anos, adjunto de Fisiologia na
Faculdade de Medicinal. Foi um
trabalhador incansável.
Através de uma série de investigações plenas de êxito, descobriu a
seroterapia que tão incalculáveis benefícios tem proporcionado à
Humanidade. Contava Richet 37 anos,
quando, em 1887, foi designado professor de Fisiologia, fazendo, logo a seguir,
várias descobertas de capital importância, sustentando inúmeras teorias que,
com o correr do tempo, contribuíram extraordinariamente para o progresso da
Ciência, e, em 1913, publicou um livro à base de seu estudo experimental sobre
a "anafilaxia", descoberta essa que, além de novamente assombrar o
mundo científico de sua época, lhe proporcionou o Prêmio Nobel de Fisiologia e
Medicina, em 1913. Nele já se havia
revelado o mestre com todos os atributos do saber científico. Sua agitação inata e seu intenso fervor
pacifista levaram-no, em 1884, a participar do movimento de pacificação, a
ponto de ocupar a presidência da Sociedade de Pacifistas. Discursos, conferências, artigos e livros
foram assinalando sua trajetória, que culminou, em 1930, depois de um passeio
pela Itália, Romênia e Rússia, onde contava com muitos admiradores do seu livro
"Pela Paz", dedicado a seu avô, por lhe ter este inoculado a aversão
à guerra, desde a sua meninice.
Este gênio, extraordinariamente privilegiado, cujo natural dinamismo o
impedia de entregar-se ao descanso, empregava o tempo livre de sua tarefa
científica em vasta produção literária que, só por só, o colocava entre os
grandes escritores da época. Seus
livros denotam profunda inquietude pelas condições de vida do povo e tendem a
melhorar a conduta dos homens, por uma maior moralização de seus costumes. O sociólogo profundo que havia nele surgia
amplamente de seus escritos, combatendo igualmente o baixo índice de natalidade
na raça branca e, como estudioso dos problemas sociais, isso o preocupava
sobremodo, pela possível extinção da raça mais evolvida do planeta.
Sua considerável obra literária colocou-o na posição de autor ilustre e
a Academia de Ciências o chamou, por isso, ao seu seio, justo reconhecimento a
quem, como poucos, era acadêmico no fundo e na forma.
Seus estudos iniciais sobre o sonambulismo conduziram-no posteriormente
ao estudo do hipnotismo, e em 1884 recebeu a visita do sábio russo Aksakof, que
lhe disse: "O senhor se ocupa de sonambulismo e de hipnotismo, mas existe
ainda uma coisa mais interessante: os fenômenos denominados espíritistas, isto é,
as aparições e os movimentos de objetos sem contacto."
Pouco tempo depois Richet visitava Milão, a convite de Aksakof, onde, em
companhia de César Lombroso, Schiapareili, Chiaia e Finzi, assistiu às
experiências que então se faziam com Eusápia Paladino. Dali saiu plenamente convencido da
existência de fenômenos cujo estudo, menosprezado pela ciência oficial, era do
domínio exclusivo da fisiologia experimental.
De retorno ao seu país, prosseguiu na investigação dos fenômenos
psíquicos, que o apaixonaram tanto quanto a Fisiologia; e, depois de novas
experiências com Paladino, que a seu pedido fora à França e se hospedara em uma
ilha de propriedade de Richet, realizadas em companhia de Oliver Lodge, Myers e
Ochorowicz, resolveu criar, em 1891, um periódico especializado desta nova
ciência, denominado "Anais de Ciências Psíquicas".
Charles Richet, afirmando a existência do sexto sentido, não obstante o cepticismo dos que só admitiam os
cinco sentidos conhecidos, conseguiu a sua aceitação definitiva.
Sua obra - "Nosso Sexto Sentido" - fez que convergisse para
ele a atenção geral, e já em 1897 ocupava a Presidência da "Sociedade de
Estudos Psíquicos" de Londres e definia a Metapsíquica como "o estudo
de propriedades do espírito que saem do campo de observação da psicofisiologia,
aliás universalmente admitida e ensinada". Sempre em busca de novas provas da imortalidade da alma, viajou
pela Itália, Alemanha, Inglaterra, Suécia e Polônia, fazendo experiências com
distintos médiuns. A Metapsíquica o
absorvia já quase totalmente, quando em 1914 idealizou em França, sua pátria
(onde não existia nenhuma organização que reunisse os investigadores), sessões
de almoços que contavam habitualmente com comensais ilustres, tais como
Fiammarion, Roux, Maxweli, Bergson, Grammout, Vesme, etc. Nessas reuniões, logo após a saída dos
serviçais, Richet costumava bater em um vaso, indicando assim o começo das
conversações, durante as quais se entremeavam informações e novidades,
estabelecendo-se sistemas de trabalho, etc.
A 13 de novembro de 1935, dias antes de seu decesso, Richet ainda
presidia às reuniões, às quais só faltara poucas vezes. "Eu virei até à minha morte",
costumava dizer.
Conjuntamente com o Dr. Geley, o professor Santolíquido e Meyer de
Beziers fundaram tempos depois, em Paris, o "Instituto Metapsíquico
Internacional" e criaram a "Revista Metapsíquica", sendo ele
designado para presidente, cargo que desempenhou com profunda dedicação, já que
o Instituto era a concretização de um velho anelo que não supusera ver realizado.
Em 1922 apresentou à Academia de Ciências seu famoso "Tratado de
Metapsíquica", obra-prima de seu pensamento luminar e que o imortalizou,
mostrando-o como autêntico iniciado em cumprimento de alta missão com projeções
de eternidade. Em 1926 o Governo de
Painlevé lhe concedeu a distinção da Legião de Honra, no grau de
Grão-Oficial. Ao receber a distinção
pelas mãos do Marechal Foch, a cujo ato assistiu a mencionado Presidente do
Conselho de Ministros da França, Richet se aproveitou da oportunidade para
insistir longamente sobre o porvir da Metapsíquica como a grande esperança do
futuro, afirmando que "um novo ideal moral seria sua conseqüência".
Posteriormente e sempre em defesa da Metapsíquica, sua pena lançou à
circulação "O Futuro da Premonição", em 1931, "A Grande
Esperança", em 1933, e "Em Socorro", em 1935, desencarnando
pouco depois, aos 85 anos de idade.
A vida de Chartes Richet, sábio entre os sábios, apóstolo em toda a
acepção do vocábulo, foi um relâmpago nas trevas de uma época de obscurantismo,
em que as correntes materialistas detinham o cetro. Seu "Tratado de Metapsíquica", verdadeira Constituição
Científica do Espiritismo, situa-o entre a plêiade de seres superiores que de
tempos a tempos encarnam, a fim de auxiliarem a orientação do homem em seus
novos destinos. Um de seus biógrafos, o
Dr. Eugênio Osty, confirma esta assertiva com as seguintes palavras: "Uma
soberana serenidade; uma esquisita amabilidade, uma alma elevada que esquecia
toda injúria, e uma grande bondade, completam a excepcional personalidade de
Charies Richet."
1 Não foi, em vão, destacado discípulo do grande mestre Claude Bernard.
Fonte : Revista espírita “O Reformador” – FEB - 2000