Destino

Determinismo e Fatalidade

 

A fatalidade na vida terrestre, pode-se dizer que está estreitamente vinculada ao exercício do livre arbítrio.  Diz o apóstolo Paulo:

 

"Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará. (Gálatas, 6:7)

 

A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória.  Temos liberdade para exercer nossa vontade e efetuar opções, mas a Vida estará realizando, sem cessar, no íntimo de nossa consciência, um levantamento de bens e males cultivados, premiando-nos com a paz ou corrigindo-nos com a dor, a fim de que não nos percamos nem estacionemos nos caminhos da evolução.

 

O nosso presente é, inelutavelmente, fruto do que fizemos no passado, da mesma forma que o nosso futuro

será sempre uma projeção de nosso comportamento atual.

 

 

Há uma fatalidade nos acontecimentos da vida, segundo o sentido ligado a essa palavra; quer dizer, todos os acontecimentos são predeterminados, e nesse caso em que se torna o livre-arbítrio?

- A fatalidade só existe no tocante à escolha feita pelo Espírito, ao se encamar, de sofrer esta ou aquela prova; ao escolhê-la ele traça para si mesmo uma espécie de destino, que é a própria conseqüência da posição em que se encontra.  Falo das provas de natureza física, porque, no tocante às provas morais e às tentações, o Espírito, conservando o seu livre-arbítrío sobre o bem e o mal, é sempre senhor de ceder ou resistir.  Um bom Espírito, ao vê-lo fraquejar, pode correr em seu auxílio mas não pode influirsobre ele a ponto de subjugar-lhe a vontade.  Um Espírito mau, ou seja, inferior, ao lhe mostrar ou exagerar um perigo físico, pode abalá-lo e assustá-lo, mas a vontade do Espírito encarnado não fica por isso menos livre de qualquer entrave.

 

Há pessoas que parecem perseguidas por uma fatalidade, independentemente de sua maneira de agir; a desgraça está no seu destino?

- São talvez, provas que devem sofrer e que elas mesmas escolheram. Ainda uma vez levaís à conta do destino o que é quase sempre a conseqüência de sua própria falta.  Em meio dos males que te afligem, cuida que a tua consciência esteja pura e te sentirás meio consolado.

 

As idéias justas ou falsas que fazemos das coisas nos fazem vencer ou fracassar, segundo o nosso caráter e a nossa posição social.  Achamos mais simples e menos humilhante para o nosso amor-próprio atribuir os nossos fracassos à sorte ou ao destino, do que a nós mesmos.  Se a influência dos Espíritos contribui algumas vezes para isso, podemos sempre nos subtrair a ela, repelindo as idéias más que nos forem sugeridas.

 

Certas pessoas escapam a um perigo mortal para cair em outro; parecem que não podem escapar à morte.  Não há nisso fatalidade?

- Fatal, no verdadeíro sentido da palavra, só o ínstante da morte.  Chegando esse momento, de uma forma ou de outra, a ele não podeis furtar-vos.

 

 

Assim, qualquer que seja o perigo que nos ameace, não morreremos se a nossa hora não chegou?

- Não, não morrerás, e tens disso milhares de exemplos.  Mas quando chegar a tua hora de partir, nada te livrará. Deus sabe com antecedência qualogênerodemorteporquepartirásdaqui, e freqüentementeteuespíríto também o sabe, pois isso lhe foí revelado quando fez a escolha desta ou daquela existência.

 

Qual o fito da Providência ao fazer-nos correr perigos que não devem ter conseqüências?

- Quando tua vida se encontra em perigo é essa uma advertência que tu mesmo desejaste, a fim de te desviar do mal e te tomar melhor.  Quando escapas a esse perigo, ainda sob a influência do risco por que passaste, pensas com maior ou menor intensidade, sob a ação mais ou menos forte dos bons Espíritos, em te tomares melhor.  O mau Espíríto retomando (dígo mau, subentendendo o mal que ainda nele existe), pensas que escaparás da mesma maneira a outros perigos e deixas que as tuas paixões se desencadeiem de novo.  Pelos perigos que correis, Deus vos recorda a vossa fraqueza e a fragilidade de vossa existência.  Se examinarmos a causa e a natureza do perigo veremos que, na maioria das vezes, as conseqüências foram a punição de uma falta cometida ou de um dever negligenciado.  Deus vos adverte para refletírdes sobre vós mesmos e vos emendardes.

 

Se a morte não pode ser evitada quando chega a sua hora, acontece o mesmo com todos os acidentes no curso da nossa vida?

- São, em geral, coisas demasiado pequenas, das quais podemos prevenír-vos dirigindo o vosso pensamento no sentido de as evitardes, porque não gostamos do sofrimento material. Mas isso é de pouca importâncía para o curso da vida que escolhesses.  A fatalidade, na verdade, só consiste nestas duas horas: a em que deveis aparecere desaparecer deste mundo.

 

Há fatos que devem ocorrer forçosamente e que a vontade dos Espíritos não pode conjurar?

- Sim mas que tu, quando no estado de Espírito, viste e pressentiste, ao fazer à tua escolha.  Não acredíteis, porém, que tudo o que acontece esteja escrito como se diz.  Um acontecimento é quase sempre a conseqüência de uma coisa que fízeste por um ato de tua livre vontade, de tal maneíra que, se não tivésseís praticado aquele ato, o acontecimento não se verificaria.  Se queimas o dedo, isso é apenas a conseqüência de tua imprudência e da condição da matéria.  Somente as grandes dores, os acontecimentos importantes e capazes de influir na tua evolução moral são previstos por Deus, porque são úteis à tua purificação e à tua instrução.

 

Pode o homem, por sua vontade e pelos seus atos, evitar acontecimentos que deviam realizar-se e vice-versa?

- Pode, desde que esse desvio aparente possa caber na ordem geral da vida que ele escolheu.  Além disso, para fazero bem, como é do seu dever e único objetivo da vida, ele pode impedir o mal, sobretudo aquele que pudesse contribuir para um mal ainda maior.

 

Há pessoas que nunca conseguem êxito e que um mau gênio parece perseguir, em todos os seus empreendimentos.  Não é isso o que podemos chamar fatalidade?

- Pode ser fatalidade, se assim o quiseres, mas decorrente da escolha do gênero de existência, porque essas pessoas quiseram ser experímentadas por uma vida de decepções a fím de exercitarem a sua paciência e a sua resignação.  Não creias, entretanto, que seja isso o que fatalmente acontece; muitas vezes é apenas o resultado de haverem elas tomado um caminho errado, que não está de acordo com a sua inteligência e as suas aptidões. Aquele que quer atravessar um rio a nado, sem saber nadar, tem grande probabilidade de morrer afogado.  Assim acontece na maioria das ocorrêncías da vída.  Se o homem não empreendesse maís do que aquilo que está de acordo com as suas faculdades, triunfaria quase sempre, o que o perde é o seu amor-próprio ea sua ambição, que o desvíam do camínho para tomar por vocação o simples desejo de satisfazer certas paixões.  Então fracassa e a culpa é sua, mas em vez de reconhecer o erro prefere acusar a sua estrela.  Há o que teria sido um bom operário, ganhando honradamente a vida, mas se fez mau poeta e morre de fome.  Haveria lugar para todos, se cada um soubesse ocupar o seu.

Se há pessoas para as quais a sorte é contrária, outras parecem favorecidas por ela, pois tudo lhe sai bem, a que se deve isso?

- Em geral, porque sabem orientar-se melhor.  Mas ísso pode ser, também, um gênero de prova: o sucesso as embriaga, elas se fíam no seu destino, e freqüentemente vão pagar mais tarde esse sucesso com reveses cruéis, que poderiam ter evitado com um pouco de prudência.

 

Como explicar a sorte que favorece certas pessoas em circunstâncias que não dependem da vontade nem da inteligência, como no jogo, por exemplo?

- Certos Espíritos escolheram antecipadamente determínadas espécíes de prazer, e a sorte que os favorece é uma tentação.  Aquele que ganha como homem perde como Espírito: é uma prova para o seu orgulho e a sua cupídez.

 

Então, a fatalidade que parece presidir aos destinos do homem na vida material seria também resultado do nosso livre-arbítrio?

- Tu mesmo escolheste a tua prova, quanto maís rude ela for, se melhor a suportas, mais te elevas.  Os que passam a vida na abundância e no bemestar são Espírítos covardes que permanecem estacionários.  Assim, o número dos infortunados sobrepassa de muito o dos felizes do mundo, visto que os Espíritos procuram, na sua maioría, as provas que lhes sejam maís frutuosas.  Eles vêem muito bem a futilidade de vossas grandezas e dos vossos prazeres.  Aliás, a vida mais feliz é sempre agitada, sempre perturbada: não seria assim pela ausência da dor.

 

De onde procede a expressão: nascido sob uma boa estrela?

-         Velha superstição, segundo a qual as estrelas estariam lígadas ao destíno de cada homem: alegoria que certas pessoas fazem a tolice de tomar ao pé da letra.

 

 

 

Referências bibliográficas:

Allan Kardec – O Livro dos Espíritos

Richard Simonetti – A constituição divina