No capítulo XI do Livro dos Espíritos há a seguinte questão:
Qual o tipo mais perfeito que Deus
ofereceu ao homem para lhe servir de guia e de modelo?
- Vede Jesus.
Jesus é para o homem o tipo da
perfeição moral a que pode aspirar a Humanidade na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito
modelo e a doutrina que ele ensinou é a mais pura expressão de sua
lei, porque ele estava animado do espírito divino e foi o ser mais puro que já
apareceu na Terra.
Se alguns dos que pretenderam
instruir os homens na lei de Deus algumas vezes os desviaram para falsos
princípios, foi por se deixarem dominar por sentimentos demasiado terrenos e
por terem confundido as leis que regem as condições da vida da alma com as que
regem a vida do corpo. Muitos deles
apresentaram como leis divinas o que era apenas leis humanas, instruídas para
servir às paixões e dominar os homens.
Podemos reconhecer em Jesus um
daqueles espíritos de ordem mais elevada, e que está colocado, pelas suas
virtudes, bem acima da Humanidade terrestre.
Pelos imensos resultados que ele produziu, a sua encarnação neste mundo
não poderia ser senão uma dessas missões que não são confiadas senão aos mensageiros
diretos da Divindade para o cumprimento de seus desígnios. Supondo que ele não fosse o próprio Deus,
mas um enviado de Deus para transmitir a sua palavra, ele seria mais do que um
profeta, por que seria um Messias divino.
Segundo Emmanuel, Ele já
era um preposto de Deus quando a Terra desprendeu-se do Sol, massa de fogo
incandescente, há quatro bilhões e quinhentos milhões de anos, conforme
estimativas da Ciência.
Foi então convocado pelo Criador
para ser o governador de nosso planeta, com a tarefa de conduzir os Espíritos
que aqui fariam estágios evolutivos, quais alunos conduzidos a um educandário
para aprendizado específico.
Como homem, tinha Jesus a
organização dos seres carnais mas como Espírito puro, desligado da matéria,
deveria viver a vida espirtual mais do que a vida corpórea, da qual não tinha
as fraquezas.
A superioridade de Jesus sobre os homens
não se prendia às particularidades de seu corpo, mas às de seu Espírito, que dominava a matéria de maneira absoluta, e à
de seu perispírito, haurida na parte mais quintessenciada dos fluidos terrestres.
Sua alma não
devia prender-se ao corpo senão pelos laços estritamente indispensáveis;
constantemente desligado, devia dar-lhe uma dupla
vista não somente permanente, mas de uma penetração excepcional e bem de
outro modo superior àquela que se vê entre os homens comuns. Deveria ser do mesmo modo em todos os
fenômenos que dependem dos fluidos perispirituais ou psíquicos. A qualidade destes fluidos lhe dava uma
imensa força magnética, secundada pelo desejo incessante de fazer o bem.
Nas curas que ele operava, agia como
médium?
Pode-se considerá-lo como um poderoso médium curador?
Não; porque o médium é um
intermediário, um instrumento de que se servem os Espíritos desencarnados. Ora, o Cristo não tinha necessidade de
assistência, ele que assistia os outros; agia, pois, por si mesmo, em virtude
de seu poder pessoal. Segundo a definição dada por um Espírito, ele era médium
de Deus.
Diante das águas calmas, Jesus
refletia.Afastara-se da multidão, momentos antes.Ouvira remoques e
sarcasmos.Vira chagas e aflições.
O Mestre pensava...
Tadeu e Tiago, o moço, João e
Bartolomeu aproximaram-se. Não era
aquele um momento raro? E ensaiaram
perguntas.
- Senhor - disse João -, qual é o
mais importante aviso da Lei na vida dos homens?
E o Divino Amigo passou a responder:
- Amemos a Deus sobre todas as
coisas e o próximo como a nós mesmos.
- E qual é a virtude mais preciosa?
- indagou Tadeu.
- A humildade.
- Qual o talento mais nobre, Senhor?
- falou Tiago.
- O trabalho.
- E a norma de triunfo mais elevada?
- interrogou Bartolomeu.
- A persistência no bem.
- Mestre, e qual é, para nós todos,
o mais alto dever? - aventurou Tadeu novamente.
- Amar a todos, a todos servindo sem
distinção.
- Oh! isso é quase impossível -
gemeu o aprendiz.
- A maldade é atributo de todos -
clamou Tiago - faço o bem quanto posso, mas apenas recolho espinhos de
ingratidão.
- Vejo homens bons sofrendo calúnias
por toda parte - acentuou outro discípulo.
- Tenho encontrado mãos criminosas
toda vez que estendo as mãos para auxiliar - disse outro.
E as mágoas desfilaram diante do
Mestre silencioso. João, contudo, voltou a interrogá-lo:
- Senhor, que é mais difícil? Qual a aquisição mais difícil?
Jesus sorriu e declarou:
- A resposta está aqui mesmo em vossas lamentações. O mais difícil é ajudar em silêncio, amar sem crítica, dar sem pedir, entender sem reclamar... A aquisição mais difícil para nós todos chama-se paciência.
Discorriam
os discípulos, entre si, quanto às coisas essenciais ao bem-estar, quando o
Senhor, assumindo a direção dos pensamentos em dissonância, acrescentou:
- É
indispensável que a criatura entenda a própria felicidade para que se não
transforme, ao perdê-la, em triste fantasma da lamentação. Longe das verdades mais simples da Natureza,
mergulha-se o homem na onda pesada de fantasiosos artifícios, exterminando o
tempo e a vida, através de inquietações desnecessárias.
E, como
quem recordava incidente adequado ao assunto, interrompeu-se por alguns
instantes e retomou a palavra, comentando:
- Ilustre
dama romana, em companhia dum filhinho de cinco anos, dirigia-se da cidade dos
Césares para Esmirna, em luxuosa galera de sua pátria. Ao penetrar na embarcação, fizera-se
acompanhar de dois escravos, carregados de volumosa bagagem de jóias
diferentes: colares e camafeus, braceletes e redes de ouro, adornados com
pedrarias, revelavam-lhe a predileção pelos enfeites raros. Todo o pessoal de serviço inclinou-se, com
respeito, ao vê-la passar, tão elevada era a expressão do tesouro que trazia
para bordo.
Tão logo
se fêz o barco ao mar alto, a distinta senhora converteu-se no centro das
atenções gerais. Nas festas de
cordialidade era o objetivo de todos os interesses pelos adornos brilhantes com
que se apresentava.
A excursão
prosseguia tranquila, quando, em certa manhã ensolarada, apareceu o
imprevisto. O choque em traiçoeiro
recife abre extensa brecha na galera e as águas a invadem. Longas horas de luta surgem com a
expectativa de refazimento; entretanto, um abalo mais forte leva o navio a
posição irremediável e alguns botes descidos são colocados à disposição dos
viajantes para os trabalhos de salvamento possível.
A ilustre patrícia é chamada à pressa.
O
comandante calcula a chegada a porto próximo em dois dias de viagem arriscada,
na hipótese de ventos favoráveis.
A jovem
matrona abraça o filhinho, esperançosa e aflita. Dentro em pouco ela atinge o pequeno barco de socorro,
sustentando a criança e pequeno pacote em que os companheiros julgaram
trouxesse as jóias mais valiosas.
Todavia, apresentando o conteúdo aos poucos irmãos de infortúnio que
seguiriam junto dela, exclamou:
-
"Meu filho é o que possuo de mais precioso e aqui tenho o que considero de
mais útil”. O insignificante volume
continha dois pães e, dez figos maduros, com os quais se alimentou a reduzida
comunidade de náufragos, durante as horas aflitivas que os separavam da terra
firme.
O Mestre
repousou, por alguns segundos, e acrescentou:
- A
felicidade real não se fundamenta em riquezas transitórias, porque um dia
sempre chega em que o homem é constrangido a separar-se dos bens exteriores
mais queridos ao coração. Os loucos se
apegam a terras e moinhos, moedas e honras, vinhos e prazeres, como se nunca
devessem acertar contas com a morte. O
espírito prudente, porém, não desconhece que todos os patrimônios do mundo
devem ser usados para nosso enriquecimento na virtude e que as bênçãos mais
simples da Natureza são as bases de nossa tranquilidade essencial. Procuremos, pois, o Reino de Deus e sua
justiça, tomando à Terra o estritamente necessário à manutenção da vida física
e todas as alegrias ser-nos-ão acrescentadas.
Diante da perplexidade dos ouvintes,
falou Jesus, convincente:
- Em verdade, é muito difícil vencer
os aflitivos cuidados da vida humana.
Para onde se voltem nossos olhos, encontramos a guerra, a incompreensão,
a injustiça e o sofrimento. No Templo,
que é o Lar do Senhor, comparecem o orgulho e a vaidade nos ricos, o ódio e a
revolta nos pobres. Nem sempre é
possível trazer o coração puro e limpo, como seria de desejar, porque há
espinheiros, lamaçais e serpentes que nos rodeiam.
Entretanto, a ideia do Reino Divino
é assim como a semente minúscula do trigo.
Quase imperceptível é lançada à terra, suportando-lhe o peso e os
detritos, mas, se germina, a pressão e as impurezas do solo não'lhe paralisam a
marcha. Atravessa o chão escuro e,
embora dele retire em grande parte o próprio alimento, o seu hnpulso de
procurar a luz de cima é dominante.
Desde então, haja sol ou chuva, faça dia ou noite, trabalha sem cessar
no próprio crescimento e, nessa ânsia de subir, frutifica para o bem de
todos. O aprendiz que sentiu a
felicidade do avivamento interior, qual ocorre à semente de trigo, observa que
longas raizes o prendem às inibições terrestres... Sabe que a maldade e a
suspeita lhe rondam os passos, que a dor é ameaça constante; todavia,
experimenta, acima de tudo, o impulso de ascensão e não mais consegue deter-se. Age constantemente na esfera de que se fêz
peregrino, em favor do, bem geral. Não
encontra seduções irresistivéis nas flores da jornada. O reencontro com a Divindade, de que se
reconhece venturoso herdeiro, constitui-lhe objetivo imutável e não mais
descansa, na marcha, como se uma luz consumidora e ardente lhe torturasse o
coração. Sem perceber, produz frutos de
esperança, bondade, amor e salvação, porque jamais recua para contar os
benefícios de que se fêz instrumento fiel.
A visão do Pai é a preocupação obcecante que lhe vibra na alma de filho
saudoso.
O Mestre silenciou por momentos e concluiu:
- Em razão disso, ainda que o
discípulo guarde os pés encarcerados no lodo da Terra, o trabalho infatigável
no bem, no lugar em que se encontra, é o traço indiscutível de sua
elevação. Conheceremos as árvores pelos
frutos e identificaremos o operário do Céu pelos serviços em que se exprime.
A essa altura, Pedro interferiu,
perguntando:
- Senhor: que dizer, então, daqueles
que conhecem os sagrados princípios da caridade e nao os praticam?
Esboçou Jesus manifesta satisfação
no olhar e elucidou:
- Estes, Simão, representam sementes
que dormem, apesar de projetadas no seio dadivoso da terra. Guardarão consigo preciosos valores do Céu,
mas jazem inúteis por muito tempo.
Estejamos, porém, convictos de que os aguaceiros e furacões passarao por
elas, renovando-lhes a posição no solo, e elas germinarão, vitoriosas, um
dia. Nos campos de Nosso Pai, há
milhões de almas assim, aguardando as tempestades renovadoras da experiência,.
para que se dirijam à glória do futuro.
Auxillemo-las com amor e prossigamos, por nossa vez, mirando a frente!
Em seguida, ante o silêncio de
todos, Jesus abençoou a pequena assembléia familiar e partiu.
Povoara-se o firmamento de estrelas,
dentro da noite prateada de luar, quando o Senhor, instalado provisoriamente em
casa de Pedro, tomou , os Sagrados Escritos e, como se quisesse imprimir novo
rumo à conversação que se fizera improdutiva e menos edificante, falou com bondade:
- Simão, que faz o pescador quando
se dírige para o mercado com os frutos de cada dia?
O apóstolo pensou alguns momentos e
respondeu, hesitante:
- Mestre, naturalmente, escolhemos
os peixes melhores. Ninguém compra os
resíduos da pesca.
Jesus sorriu e perguntou, de novo:
- E o oleiro? que faz para atender à
tarefa a que se propõe?
- Certamente, Senhor - redarguiu o
pescador, intrigado -, modela o barro, imprimindo-lhe a forma que deseja.
O Amigo Celeste, de olhar compassivo
e fulgurante, insistiu:
- E como procede o carpinteiro para
alcançar o trabalho que pretende?
O interlocutor, muito simples,
informou sem vacilar:
- Lavrará a madeira, usará a enxó e
o serrote, o martelo e o formão. De
outro modo, não aperfeiçoará a peça bruta.
Calou-se Jesus, por a1guns
instantes, e aduziu:
- Assim, também, é o lar diante do
mundo. O berço doméstico é a primeira
escola e o primeiro templo da alma. A
casa do homem é a legítima exportadora de caracteres para a vida comum. Se o negociante seleciona a mercadoria, se o
marceneiro não consegue fazer um barco sem afeiçoar a madeira aos seus
propósitos, como esperar uma comunidade segura e tranquila sem que o lar se
aperfeiçoe? A paz do mundo começa sob
as telhas a que nos acolhemos. Se não
aprendemos a viver em paz, entre quatro paredes, como aguardar a harmonia das
nações? Se nos não habituamos a amar o
irmão mais próximo, associado à nossa luta de cada dia, como respeitar o Eterno
Pai que nos parece distante?
Jesus relanceou o olhar pela sala
modesta, fêz pequeno intervalo e continuou:
- Pedro, acendamos aqui, em torno de quantos nos procuram a assistência fraterna, uma claridade nova. A mesa de tua casa é o lar de teu pão. Nela, recebes do Senhor o alimento para cada dia. Por que não instalar, ao redor dela, a sementeira da felicidade e da paz na conversação e no pensamento? O Pai, que nos dá o trigo para o celeiro, através do solo, envia-nos a luz através do Céu. Se a claridade é a expansão dos raios que a constituem, a fartura começa no grão. Em razão disso, o Evangelho não foi iniciado sobre a multidão, mas, sim, no singelo domicílio dos pastores e dos animais.
Simão Pedro fitou no Mestre os olhos
humildes e lúcidos e, como não encontrasse palavras adequadas para explicar-se,
murmurou, tímido:
- Mestre, seja feito como desejas.
Então Jesus, convidando os
familiares do apóstolo à palestra edificante e à meditação elevada, desenrolou
os escritos da sabedoria e abriu, na Terra, o primeiro culto cristão do lar.
Fontes:
O Livro dos Espíritos – Allan Kardec
A Genesis – Allan Kardec
Boa Nova – Francisco C. Xavier
Jesus no lar – Neio Lúcio/Francisco Xavier
Paz na Terra – Richard Simonetti