Deus, criador de tudo. Não só a terra é habitada.

A prece como forma de percebermos a bondade de Deus. O amor fraterno.

 

 

Deus é a causa primeira de todas as coisas, o ponto de partida de tudo, o eixo sobre o qual repousa o edifício da criação.

 

É princípio elementar que se julgue uma causa por seus efeitos, mesmo quando não se vê a causa.

 

Se um pássaro, cortando o ar, é atingido por um chumbo mortal, julga-se que um hábil atirador o feriu, embora não se veja o atirador.  Não é, pois, sempre necessário ter visto uma coisa para saber que ela existe.  Em tudo, é observando-se os efeitos que se chega ao conhecimento das causas.

 

Se se perguntasse qual é o construtor de tal engenhoso mecanismo, o que se pensaria daquele que respondesse que ele se fez por si mesmo? 

Quando se vê uma obra-prima, obra de arte ou de indústria, diz-se que isso deve ser o produto de um homem de gênio, porque uma alta inteligência deve ter presidido a sua concepção; não obstante julga-se que um homem deveu  fazê-la, porque se sabe que a coisa não está acima da capacidade humana,mas não ocorrerá a ninguém dizer que saiu do cérebro de um idiota ou de um ignorante, e ainda menos que seja o trabalho de um animal ou o produto do acaso.

 

Por toda parte reconhece-se a presença do homem por suas obras.  A existência dos homens antedíluvianos não se provaria somente pelos fósseis humanos, mas, também, e com igual certeza, pela presença nos terrenos dessa época, de objetos trabalhados pelos homens; um fragmento de vaso, uma pedra talhada, uma arma, um tijolo bastarão para atestar a sua presença.  Pela grosseria ou pela perfeição do trabalho se reconhecerá o grau de inteligência e adiantamento daqueles que o realizaram.  Se, pois, encontrando-vos em um pais habitado exclusivamente por selvagens, descobrirdes uma estátua digna de Fídias, não hesitareis em dizer que os selvagens sendo incapazes de tê-la feito, deve ser a obra de uma inteligência superior à dos selvagens.

 

Pois bem! lançando os olhos ao redor de si, sobre as obras da Natureza, observando a previdência, a sabedoria, a harmonia que presidem a tudo, reconhece-se que não há nenhuma delas que não sobrepasse o mais alto alcance da inteligência humana.  Desde que o homem não pode produzi-la, é porque são o produto de uma inteligência superior à Humanidade, a menos que se diga que há efeitos sem causa

 

A existência do relógio atesta a existência do relojoeiro; a engenhosidade do mecanismo atesta a inteligência e o saber do relojoeiro.  Quando o relógio vos dá, no momento. próprio, a informação de que tendes necessidade, jamais veio ao pensamento de alguém dizer: Eis um relógio bem inteligente.

 

Ocorre o mesmo com o mecanismo do Universo:

                                                                    Deus não se mostra, mas se afirma pelas suas obras.

 

Não só a terra é habitada

 

Todos os globos que circulam no espaço são habitados?

- Sim, e o homem terreno está bem longe de ser, como acredita, o primeiro em inteligência, bondade e perfeição.  Há, entretanto, homens que se julgam espíritos fortes e imaginam que só este pequeno globo tem o privilégio de ser habitado por seres racionais.  Orgulho e vaidade!  Crêem que Deus criou o Universo somente para eles.

Deus povoou os mundos de seres vivos, e todos concorrem para o objetivo final da Providência.  Acreditar que os seres vivos estejam limitados apenas ao ponto que habitamos no Universo, seria por em dúvida a sabedoria de Deus que nada fez de inútil e deve ter destinado esses mundos a um fim mais sério do que o de alegrar os nossos olhos.  Nada, aliás, nem na posiçao, no volume ou na constituição física da Terra, pode razoavelmente levar-nos à suposição de que tenha o privilégio de ser habitada, com exclusão de tantos milhares de mundos semelhantes.

 

A constituição física dos mundos não sendo a mesma para todos, os seres que os habitam terão organização diferente?

- Sem dúvida, como entre vós os peixes são feitos para viver na água e os pássaros, no ar.

 

Os mundos mais distanciados do Sol são privados de luz e calor, de vez que o Sol lhes aparece apenas como uma estrela?

- Acredítais que não há outras fontes de luz e calor, além do Sol?  Não tendes em conta a eletricidade, que em certos mundos, desempenha um papel desconhecido para vós e bem mais importante que o que lhe cabe na Terra?  Aliás, não dissemos que todos os seres vivam da mesma maneira que vós, com órgãos semelhantes aos vossos.

As condições de existência dos seres nos diferentes mundos devem ser apropriadas ao meio em que têm de viver.  Se nunca tivéssemos visto peixes não compreenderíamos como alguns seres pudessem viver na água.  O mesmo acontece com outros mundos, que sem dúvida contêm elementos para nós desconhecidos.  Não vemos na Terra as longas noites polares iluminadas pela eletricidade das auroras boreais?  Que haveria de impossível para a eletricidade ser mais abundante que na Terra, desempenhando um papel geral cujos efeitos podemos compreender?  Esses mundos podem conter em si mesmos as fontes de luz e calor necessárias aos seus habitantes.

 

Bondade de Deus.  A prece como forma de percebermos a bondade de Deus.

 

A oração não objetiva chamar a atenção de Deus para nós. Oramos para nos aproximar Dele, reconhecendo a Sua grandeza, Sua presença em nossas vidas e sentindo nele o nosso apoio maior, nossa inspiração mais sublime, nossa esperança mais autêntica.

Isso favorece o nosso equilíbrio e serenidade quando desabam as tormentas existenciais, reconhecendo que “até os fios de nossa cabeça estão contados (Matheus), isto é, o Senhor conhece-nos mehor do que nós mesmos e nos oferece experiências compatíveis com nossas necessidades.

 

Pedir é um direito de todo filho que se dirige a seu pai. Pedimos o que queremos, Deus nos dá o que precisamos. A criança com uma fratura na perna pedirá mil vezes a seu pai que a liberte do gesso que a incomoda. Não será atendida, em seu próprio benefício. Todos temos “fraturas morais”. Se pretendemos que o Senhor nos liberte de sofrimentos e dificuldades retificadoras, fatalmente colheremos decepções.

 

No quadro “A luz do mundo” o pintor Holan Hunt mostra Jesus num jardim, à noite, segurando na mão esquerda uma lanterna, e com a direita batendo numa porta. Ao ver o quadro um crítico de arte observou:

-Senhor Hunt, esta porta não está acabada. Falta pintar a maçaneta da porta.

-Engano seu -explicou o artista- Esta porta simboliza o coração humano. Só pode ser aberto pelo lado de dentro.

 

A ajuda do céu chega invariavelmente, em todas as situações, desde que nos disponhamos a abrir o coração.

 

Agradeçamos à Deus por tudo o que Ele coloca à nossa disposição, diariamente, riquezas inestimáveis: a natureza, o conforto do lar, a inteligência, o trabalho, a saúde...

 

O amor fraterno

 

O espírito Emmanuel diz no livro Fonte Viva, psicografia de Chico Xavier:

 

Quando o cristão pronuncia as sagradas palavras “Pai Nosso”, está reconhecendo não somente a Paternidade de Deus, mas aceitando também por sua família a Humanidade inteira.”

 

 

Comunhão com Deus

 

     João procurou o Senhor, de modo a ouvi-lo mais amplamente sobre as dúvidas que lhe atormentavam o coração:

- Mestre - disse ele, solícito - tenho desejado sinceramente compreender os meus deveres atinentes à oração, mas sinto que minhalma está tomada de certas hesitações.  Anseio por esta comunhão perene com o Pai; todavia, as idéias mais antagônicas se opõem aos meus desejos.  Ainda agora, manifestando meu pensamento, acerca de minhas necessidades espirituais, a um amigo que se instrui com os essênios, asseverou-me ele que necessito compreender que toda edificação espiritual se deve processar num plano oculto.  Mas, suas observações me confundiram ainda mais.  Como poderei entender isso?  Devo, então, ocultar o que haja de mais santo em meu coração?

O Messias, arrancado de suas meditações, respondeu com brandura:

- João, todas as dúvidas que te assaltam se verificam pelo motivo de não haveres compreendido, até agora, que cada criatura tem um santuário no próprio espírito, onde a sabedoria e o amor de Deus se manifestam, através das vozes da consciência. No que se refere à comunhão de nossas almas com Deus, não me esqueci de recomendar que cada espírito ore no segredo do seu íntimo, no silêncio de suas esperanças e aspirações mais sagradas.

É que cada criatura deve estabelecer o seu próprio caminho para mais alto, erguendo em si mesma o santuário divino da fé e da confiança, onde interprete sempre a vontade de Deus, com respeito ao seu destino.  A comunhão da criatura com o Criador é, portanto, um imperativo da existência e a prece é o luminoso caminho entre o coração humano e o Pai de infinita bondade.

O apóstolo escutou as observações do Mestre, parecendo meditar austeramente.  Entretanto, obtemperou:

- Mas, a oração deve ser louvor ou súplica?

Ao que Jesus respondeu com bondade:

- Por prece devemos interpretar todo ato de relação entre o homem e Deus.  Devido a isso mesmo, como expressão de agradecimento ou de rogativa, a oração é sempre um esforço da criatura em face da Providência Divina.  Os que apenas suplicam podem ser ignorantes, os que louvam podem ser somente preguiçosos.  Todo aquele, porém, que trabalha pelo bem, com as suas mãos e com o seu pensamento, esse é o filho que aprendeu a orar, na exaltação ou na rogativa, porque em todas as circunstâncias será fiel a Deus, consciente de que a vontade do Pai é mais justa e sábia do que a sua própria.

- E como ser leal a Deus, na oração? - interrogou o apóstolo, evidenciando as suas dificuldades intelectuais. - A prece já não representa em si mesma um sinal de confiança?

Jesus contemplou-o com a sua serenidade imperturbável e retrucou:

- Será que também tu não entendes?  Não obstante a confiança expressa na oração e a fé tributada à providência superior, é preciso colocar acima delas a certeza de que os desígnios celestiais são mais sábios e misericordiosos do que o capricho próprio; é necessário que cada um se una ao Pai, comungando com a sua vontade generosa e justa, ainda que seja contrariado em determinadas ocasiões.  Em suma, é imprescindível que sejamos de Deus.  Quanto às lições dessa fidelidade, observemos a própria natureza, em suas manifestações mais simples.  Dentro dela, agem as leis de Deus e devemos reconhecer que todas essas leis correspondem à sua amorosa sabedoria, constituindo-se suas servas fiéis, no trabalho universal.  Já ouviste falar, alguma vez, que o Sol se afastou do céu, cansado da paisagem escura da Terra, alegando a necessidade de repousar?  A pretexto de indispensável repouso, teriam as águas privado o globo de seus benefícios, em certos anos?  Por desagradável que seja em suas características, a tempestade jamais deixou de limpar as atmosferas.  Apesar das lamentações dos que não suportam a umidade, a chuva não deixa de fecundar a terra!  João, é preciso aprender com as leis da natureza a fidelidade a Deus!  Quem as acompanha, no mundo, planta e colhe com abundância.  Observar a lealdade para com o Pai é semear e atingir as mais formosas searas da alma no infinito.  Vê, pois, que todo o problema da oração está em edificarmos o reino do céu entre os sentimentos de nosso íntimo, compreendendo que os atributos divinos se encontram também em nós.

     O apóstolo guardou aqueles esclarecimentos, cheio de boa-vontade no sentido de alcançar a sua perfeita compreensão.

- Mestre - confessou, respeitoso -, vossas elucidações abrem uma estrada nova para minha alma; contudo, eu vos peço, com a sinceridade da minha afeição, me ensineis, na primeira oportunidade, como deverei entender que Deus está igualmente em nós.

O Messias fixou nele o olhar transiúcido é, deixando perceber que não poderia ser mais explícito com o recurso das palavras, disse apenas:

        -  Eu to prometo.

***

 

A conversação que vimos de narrar verificara-se nas cercanias de Jerusalém, numa das ausências eventuais do Mestre do círculo bem-amado de sua família espiritual em Cafarnaum.

No dia seguinte, Jesus e João demandaram Jericó, a fim de atender ao programa de viagem organizado pelo primeiro.

Na excursão a pé, ambos se entretinham em admirar as poucas belezas do caminho, escassamente favorecido pela Natureza.  A paisagem era árida e as árvores existentes apresentavam as frondes recurvadas, entremostrando a pobreza da região, que não lhes incentivava o desenvolvimento.

Não longe de uma pequena herdade, o Mestre e o apóstolo encontraram um rude lavrador, cavando grande poço à beira do caminho.  Bagas de suor lhe desciam da fronte; mas, seus braços fortes iam e vinham à terra, na ânsia de procurar o líquido precioso.

Ante aquele quadro, Jesus estacionou com o discípulo, a pretexto de breve descanso, e, revelando o interesse que aquele esforço lhe despertava, perguntou ao trabalhador:

        - Amigo, que fazes?

- Busco a água que nos falta - redargüiu com um sorriso o interpelado.

- A chuva é assim tão escassa nestas paragens? - tornou Jesus, evidenciando afetuoso cuidado.

  - Sim, nas proximidades de Jericó, ultimamente, a chuva se vem tornando uma verdadeira graça de Deus.

O homem do campo prosseguiu no seu trabalho exaustivo; mas, apontando para ele, o Messias disse a João, em tom amigo:

- Este quadro da Natureza é bastante singelo; porém, é na simplicidade que encontramos os símbolos mais puros.  Observa, João, que este homem compreende que sem a chuva não haveria mananciais na Terra; mas, não pára em seu esforço, procurando o reservatório que a Providência Divina armazenou no subsolo.  A imagem é pálida; todavia, chega para compreenderes como Deus reside também em nós.  Dentro do símbolo, temos de entender a chuva como o favor de sua misericórdia, sem o qual nada possuiríamos.  Esta paisagem deserta de Jericó pode representar a alma humana, vazia de sentimentos santificadores.  Este trabalhador simboliza o cristão ativo, cavando junto dos caminhos áridos, muitas vezes com sacrifício, suor e lágrimas, para encontrar a luz divina em seu coração.  E a água é o símbolo mais perfeito da essência de Deus, que tanto está nos céus como na Terra.

 

O discípulo guardou aquelas palavras, sabendo que realizara uma aquisição de claridades imorredouras.  Contemplou o grande poço, onde a água clara começava a surgir, depois de imenso esforço do humilde trabalhador que a procurava desde muitos dias, e teve nítida compreensão do que constituía a necessária comunhão com Deus.  Experimentando indefinível júbilo no coração, tomou das mãos do Messias e as osculou, com a alegria do seu espírito alvoroçado.  Confortado, como alguém que vencera grande combate íntimo, João sentiu que finalmente compreendera.

 

 

***   ***

 

 

Estando o Mestre a ensinar aos companheiros uma nova lição referente ao impulso natural da prece, Simão lhe observou:

- Senhor, tenho procurado, por todos os modos, manter inalterável a minha comunhão com Deus, mas não tenho alcançado o objetivo de minhas súplicas.

-  E que tens pedido a Deus? - interrogou o Mestre, sem se perturbar.

- Tenho implorado à sua bondade que aplaine os meus caminhos, com a solução de certos problemas materiais.

Jesus contemplou longamente o discípulo, como se examinasse a fragilidade dos elementos intelectuais de que podia dispor para a realização da obra evangélica.  Contudo, evidenciando mais uma vez o seu profundo amor e boa-vontade, esclareceu com brandura e convicção:

- Pedro, enquanto orares pedindo ao Pai a satisfação de teus desejos e caprichos, é possível que te retires da prece inquieto e desalentado.  Mas, sempre que solicitares as bênçãos de Deus, a fim de compreenderes a sua vontade justa e sábia, a teu respeito, receberás pela oração os bens divinos do consolo e da paz.

 

 

 

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Fontes:

 

A Genese – Allan Kardec

O livro dos espíritos – Allan Kardec

Boa Nova – Francisco C. Xavier

Jesus no lar – Neio Lúcio

Nao pise na bola – Richard Simonetti